Minha mãe, sob influência do Mal Que Assola O Universo, um belo dia resolveu comprar um cachorrinho salsicha. Eu não suporto cachorros salsicha. Odeio cachorros pequenos. Eles fedem, fazem barulho e comem coisas que não deveriam ser comidas. Mas ainda assim, apesar dos meus protestos, ela foi e comprou a salsicha. Não bastasse isso, ainda resolveu chamar a salsicha de Beatrice. Acho ridículo quando alguém dá nome de gente pra cachorro. Cachorro tem que ter nome de cachorro, porra! Imagina se eu resolvo chamar minha filha de Pipoca? É meio que a mesma coisa.
Anyways, agora tinha essa "Beá" correndo pela casa o dia todo. Aborrecia o Gorbatchev (meu pastor alemão) que ficava no quintal, que é lugar de cachorro. Odeio cachorro dentro de casa. Fica pulando na sua perna quando você come, come coisas que não deve, e fede! Nossa, como esses bichos fedem! Quinze minutos depois do banho eles já tão fedendo. Quando fui pra Curitiba em 2006 foi a primeira vez que passei mais de duas semanas fora de casa desde que essas tranqueiras foram alojadas em casa, e quando entrei senti nojo do cheiro da minha casa! Nem gosto de trazer gente aqui por causa desse cheiro de cachorro empesteando a casa.
Como se não bastasse uma cria do Pazuzu assombrando a casa, meu pastor alemão morreu, o que foi muito triste pra mim. Eu tinha 18 anos, e estava com ele desde os 7. Então minha mãe teve a brilhante idéia de arrumar OUTRO SALSICHA! Numa demonstração de criatividade digna do Renato Aragão, ela chamou o salsicha de Bernardo.
Eu já não gostava da Beatrice, mas o Bernardo é um show à parte. Ele se revelou o cachorro mais irritante de toda a face da Terra! Eu sempre pensei que se eu algum dia encontrasse, de fato, o cachorro mais chato do mundo, ele seria um poodle, uma raça já famosa pela sua chatice. No entando, o salsicha Bernardo tomou para si esse título. O Insuportável, como eu passaria a chamá-lo, alcançou um nivel inédito de aborrecimento. Eu por vezes me pergunto se ele não é o avatar do Mal Que Assola O Universo, postado na minha casa com o único propósito de lenta, mais certamente, destruir minha sanidade com latidos. Ele late para tudo, TUDO! Ele late para visitas, late para os outros cachorros em casa ou fora de casa, late para gatos passando no muro, LATE PARA LESMAS! Quando sabe que meu pai tá preparando o almoço deles, ele late sem parar até ser servido... ou seja, todo dia pelos últimos 3 anos eu encaro sessões de 15 minutos de latido incessante no começo da tarde.
Tá, alguns de vocês achariam que isso já é chato o bastante... eu, pelo menos, achava. Mas para minha mãe, aparentemente, saía "As Quatro Estações" de Vivaldi saindo da boca dos cachorros, e Chanel nº5 do cocô e xixi que eles espalhavam pela casa. Um dia nefasto, quando a Beatrice estava no cio e o Insuportável mais insuportável do que nunca por querer traçar a cachorra, minha mãe pensou "Hum, que tal deixar os dois cruzarem?"
Desculpem-me... eu precisei de um tempo pra me recompor... eu já estou bem agora, já parei de chorar, obrigado. Like I was saying... minha mãe deixou os diabretes cruzarem. E foi nesse dia que foi marcado pelo destino que eu jamais teria mais de 5 minutos de paz e silêncio dentro de casa.
Alguns meses depois a Beatrice deu à luz á cinco filhotes. A razão pela qual eu não odeio tanto a Beá, e por que ela não tem um apelido pejorativo é por que ela morreu dando à luz aos filhotes, mas minha mãe tratou de suprir rapidamente o lugar da cachorra como fonte de aborrecimento. Mais uma vez atingida pela musa da incompetência, a mesma que inspira os textos do Paulo Coelho, minha mãe chamou os cães de Berenice, Britnei, Breno, Bruno e Brigite. Caralho, não basta os nomes de gente, ainda por cima tudo com B? Why, God, must you mock me in front of other people?
Como forma de amenizar minha agonia, Deus suprimiu a força da vontade do Mal Que Assola O Universo sobre minha mãe, fazendo com que ela entregasse para adoção dois dos cachorros. No entanto, não podemos nos esquecer que o Mal ainda está personificado como Bernardo "Insuportável" Hellhound. Sendo o pai dos filhotes, ele os educou na arte do aborrecimento e criou-os à sua imagem e semelhança, tendo agora quatro cachorros fedidos e insuportáveis em casa.
Além do Insuportável, temos Breno, o Viadinho. Ele é viadinho. Todos vocês já viram um cachorro viadinho, vocês sabem como é. Está constantemente pedindo atenção, choramingando pra passear, invadindo a casa e pedindo colo.
Temos Bruno, o Grandalhão, por ser maior que o pai, a mãe e os irmãos. O Grandalhão é de longe o salsicha mais tolerável. Late menos, come menos coisas, não fica tentando entrar em casa e ainda bate nos outros três ocasionalmente. Eu até gosto um pouco dele.
E por fim, Berenice, a Espoleta. Invade a casa constantemente, mija mais que um cavalo, late quase tanto quanto o Insuportável e, pra completar, é a fêmea, portanto pode a qualquer momento entrar no cio e começar uma rodada de um mês de inferno em casa.
Os únicos animais que prestam em casa são Pássaro, a calopsita, e Bagui, o boxer. O Pássaro fica passeando em cima do meu peito enquanto assisto TV e cutucando minha barba, além de cantar com um piado bonitinho. O Bagui (chamado assim porque nem eu nem meu irmão queremos chamá-lo de Wagner, pois concordamos que cachorro tem que ter nome de cachorro) foi um presente dos alunos do meu pai. Ele é uma gracinha. Late pouco, obedece, respeita, mata ratos e, acima de tudo, bate no Insuportável de vez em quando. Adoro esse cachorro.
A conclusão dessa história é: não tenham cachorros pequenos, principalmente salsichas, pois fedem e cagam mais. Não tenham em apartamento, pois o cheiro fica impregnado e não sai mais. E não dêem nome de gente para cachorros, that's just wrong.
terça-feira, 26 de fevereiro de 2008
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